Os reflexos da digitalização não comandam a democracia

© David Ausserhofer

A democracia vem passando por transformações e se moldando em um novo tempo, ocupando, desta forma, a agenda de discussão e reflexão em muitos países. Quando o assunto é a relação entre a digitalização e a democracia, muitos colocam as ferramentas da era digital, em especial as mídias sociais, como um agente ativo e influenciador da democracia nos dias atuais. Na contramão dessa teoria, Jeanette Hofmann, professora da Freie Universität de Berlim (FU Berlin) e diretora da Fundação Alexander von Humboldt (AvH) para Internet e Sociedade, acredita que as mídias sociais não ditam este comando.

Sob o tema “Digitalisation and Democracy: How to Strengthen Democracy in Brazil and Europe for the Digital Age?”, Hofmann participou da edição de maio do Fórum de Democracia Europa-Brasil, organizado pela Embaixada da República Federal da Alemanha em Brasília. Em entrevista ao DWIH São Paulo, ela falou sobre os principais dilemas dessa temática.

Evento ocorrido em Porto Alegre no dia 22 de maio
  • Qual a relação entre digitalização e democracia?

Estamos observando uma mudança fundamental da democracia. Principalmente as instituições da democracia representativa encontram-se em crise: eleições perdem seus papéis anteriormente centrais, partidos perdem seus eleitores regulares e instituições estão perdendo, mundialmente, a confiança de seus cidadãos. Mas a internet e as mídias digitais não são os responsáveis por esse processo de transformação. A mudança da democracia começou bem antes da marcha triunfal das mídias digitais.

  • Podemos dizer, então, que a digitalização não influência a democracia? Mas como lidar melhor com isso?

Exato, a digitalização em si não pode influenciar nada. A questão é como e para quais objetivos as pessoas utilizam as mídias digitais. Chama atenção o fato de que as pessoas usam as mídias sociais para experimentar novas formas de participação política. Sobretudo a geração jovem explora as novas mídias a fim de poder coordenar e expressar suas reivindicações políticas. Mas vemos também que a direita utiliza as redes sociais com muita criatividade. Um exemplo disso vimos nas ações políticas realizadas por grupos de WhatsApp na última campanha eleitoral no Brasil. Nem todas as formas de utilização podem ser avaliadas como positivas. Problemas surgem quando a comunicação política abandona a esfera pública e manifestações políticas individuais não podem ser mais criticadas devido a sua obscuridade.

  • Democracia e digitalização são temas importantes não apenas na política brasileira e europeia, mas também mundialmente. Por quê?

Uma inovação dramática consiste no fato de que os cidadãos possuem uma voz própria, podendo, assim, expressar sua frustração sobre a política do governo. Ao mesmo tempo, as mídias de massa estão perdendo seu papel de agenda setter e gate keeper, determinando como devemos interpretar o mundo e avaliar a política do governo. A pluralização do público impulsionou uma dinâmica que tornou a política menos previsível e controlável. Os efeitos são perceptíveis mundialmente.

Prof. Ivar Hartmann (FGV Direito Rio), Prof. Marco Aurelio Ruediger (FGV DAPP), Professora Jeanette Hofmann e Paula Cesarino Costa (Ombudsperson Folha de São Paulo)
  • Como a democracia pode ser fortalecida na era digital?

Em primeiro lugar, a integração da geração jovem no debate político, mas, também, uma reflexão pública sobre como a democracia representativa pode se desenvolver em uma era, na qual eleições representam apenas uma forma da participação política.

  • Qual é o papel da imprensa para o desenvolvimento da política populista?

Tenho a impressão de que os partidos e movimentos populistas cresceram justamente por meio da colaboração involuntária da imprensa. O mecanismo é bastante simples: o político diz algo provocador, ferindo as normas estabelecidas. A imprensa, que age dominada pelo princípio click bait, em busca da maior atenção possível, transforma essa provocação em uma manchete, fomentando, assim, a fama e a normalização de políticas populistas. A própria imprensa deve agir contra esse mecanismo, estabelecendo um código de conduta que condene esse tipo de divulgação.

  • A senhora participou do eventoDigitalisation and Democracy: How to Strengthen Democracy in Brazil and Europe for the Digital Age?”. Por que esse assunto se tornou atualmente tão importante?

Minha mensagem científica é a de que não deveríamos responsabilizar as mídias sociais pelos problemas da democracia. A maioria dos grandes desafios da democracia representativa não está ligada às mídias sociais. A discussão pública sobre discurso de ódio e fake news sugere que tais fenômenos antes não existiam. Sinaliza, também, que temos de enfrentar esses fenômenos judicialmente a fim de reduzir as manipulações políticas. Na minha opinião, as duas considerações não procedem. Pelo contrário:  está na hora de defendermos o direito dos cidadãos de manifestarem-se livremente e de lembrarmos que a divulgação de inverdades não é proibida. O direito de manifestar-se livremente protege essa liberdade por bons motivos. Ninguém, muito menos uma instância política, deve ter o poder de decidir em nosso nome o que é certo ou errado.

Evento ocorrido no dia 24 de maio no Rio de Janeiro

Ao fim da entrevista, solicitamos à Prof. Hofmann a responder com uma frase curta a algumas provocações.

  • Digitalização: Um processo aberto, sem lógica própria, influenciado diariamente por nós como sociedade.
  • Democracia: Uma forma atualmente fragilizada e instável, porém, ainda a melhor forma de governo, a qual precisa se preocupar com sua legitimidade.
  • Democracia e política: Uma constelação que deveríamos observar no contexto histórico.
  • O mundo ideal de uma democracia no mundo digital: Todas as pessoas se beneficiam com a queda de obstáculos em relação à informação e à participação. Além disso, muitas pessoas experimentam novas formas de participação política – aumentando, dessa maneira, seu grau de conhecimento.
  • Big Data, Scoring: As mídias digitais nos disponibilizam novos recursos de coordenação social e política. Scoring representa uma tecnologia big data que mudará nosso autoconhecimento, isto é, nossa visão sobre nós mesmos.
  • Fake News: Uma palavra que sugere mais clareza do que na verdade oferece. Não existe uma definição precisa. Por isso, não deveríamos tentar regular as fake news.
  • A sociedade nesse contexto: Em muitos países, a sociedade passa por um processo de desintegração. As mídias não são o motivo para isso, mas sim o efeito. A maneira como utilizamos as mídias revela muito sobre a situação da sociedade moderna.