Brasileira ganha prêmio Sofia Kovalevskaya e liderará grupo de pesquisa na Alemanha

© Arquivo Pessoal/Marcia Ferraz

Pesquisa sobre fertilização in vitro da cientista Marcia Ferraz foi selecionada pela Fundação Alexander von Humboldt para receber financiamento de 1,6 milhão de euros.

Entender as causas da baixa eficiência da técnica de fertilização in vitro. Essa é a linha de estudos que a doutora Marcia de Almeida Monteiro Melo Ferraz, especialista em biologia celular, conduzirá em Munique, na Alemanha, a partir de 2021. A cientista, formada em veterinária na Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em melhoramento genético e reprodução animal, na Universidade de Utrecht (Holanda), venceu recentemente o prêmio Sofia Kovalevskaya, cedido pela Fundação Alexander von Humboldt (AvH), que lhe garantiu um financiamento de 1,6 milhão de euros para liderar sua pesquisa. Ferraz é a primeira brasileira a conquistar tal façanha.

“Há milhões de casais hoje no mundo com problemas de fertilidade e, desde o primeiro caso bem-sucedido de fertilização in vitro (Louise Brown), que nasceu quase há 42 anos, a eficiência dessa técnica ainda é muito baixa”, explica Ferraz. A pesquisadora esclarece que seu estudo investigará técnicas para melhorar a qualidade embrionária para produção em fertilização in vitro.  “Como consequência, espero melhorar as taxas de gravidez nesse tipo de reprodução tanto em mulheres como em animais”, frisa.

Segundo a Anvisa órgão responsável no Brasil pelo monitoramento dos dados de produção dos bancos de células e tecidos germinativos considera-se como ciclo realizado de fertilização in vitro os procedimentos médicos nos quais a mulher é submetida à produção (estímulo ovariano) e retirada de óvulos para realizar o procedimento. De acordo com Ferraz, normalmente a taxa de sucesso de gravidez nessa técnica é de cerca de 30% a 40%. Apenas para exemplificar, dos 263.577 ciclos de tecnologia de reprodução assistida nos EUA em 2017, apenas 76.930 resultaram em nascimentos, uma eficácia de 29,18%.

Aliás, comparando os dados de 2017 de registros mundiais do emprego da técnica, os EUA lideram a fertilização in vitro no mundo com o número acima mencionado, seguido pela Espanha com 119.875 ciclos de tratamento; Rússia (110.723); Alemanha (96.512) e França (93.918). Já o Brasil realizou um total de 36.307.

Bioimpressão 3D no estudo da reprodução in vitro
O estudo de Ferraz será conduzido em parceria com a Universidade Ludwig Maximilian de Munique (LMU) e busca entender o que está faltando nesse ambiente da fertilização in vitro que leva a uma eficácia tão baixa. Para a pesquisadora, um dos motivos é o fato de que todas as técnicas de fertilização in vitro observadas hoje no mercado não consideram todo o ambiente materno, antes do útero, onde o embrião é introduzido. Na visão de Ferraz, não há muita literatura sobre o tema. “Temos muito conhecimento de como funciona o útero na parte de placentação, mas tudo que vem antes (na comunicação com os órgãos reprodutores) não se sabe muito”, destaca.

“A minha proposta é desenvolver um oviduto canal que serve para conduzir os ovos do ovário a outros órgãos do sistema reprodutor feminino, também conhecido como trompa de falópio na incubadora, fora do corpo materno, para produzir embriões ali e entender qual é essa comunicação da mãe com o embrião”, detalha a doutora.

Ferraz no laboratório investigando as causas da baixa eficácia da fertilização in vitro.

Para reproduzir esse ambiente do corpo materno no laboratório e avançar com seus estudos, a cientista usará a bioimpressão 3D, procedimento que permite, sob o controle de um computador, a reconstrução de tecidos e órgãos humanos a partir de um gel.

“As impressoras 3D que imprimem células são preparadas para criar o que a gente chama de matriz extracelular, géis que proporcionam a essas células todos os fatores que elas precisam para crescer”, conta a cientista.

A especialista em biologia celular relata que as impressoras comuns 3D imprimem em altas temperaturas e usam, em geral, o polietileno (plástico) para desenhar os objetos planejados. No caso da impressão 3D para imprimir célula, não há como usar a mesma técnica pois as altas temperaturas matariam as células. “O gel tem as condições que vão mantê-las vivas durante o processo”, esclarece.

Em janeiro de 2021, Marcia Ferraz se mudará para Alemanha e liderará por cinco anos essa pesquisa que pretende descobrir características ainda desconhecidas do diálogo entre os tecidos maternos e o embrião em desenvolvimento. 

Mais sobre a vencedora do prêmio Sofia Kovalevskaya
Marcia Ferraz é médica veterinária formada pela Universidade de São Paulo, mestre em genética e reprodução animal pela Universidade Autônoma de Barcelona e Universidade Politécnica de Valencia (Espanha) e doutora pela Universidade de Utrecht (Holanda). Após concluir o doutorado, Marcia realizou dois anos de pós-doutorado no Zoológico Nacional Smithsonian (Washington DC, EUA) e trabalhou como professora visitante no Zoológico de Toronto (Canadá).

Sobre o prêmio Sofia Kovalevskaya
O prêmio Sofia Kovalevskaya é concedido desde 2002, a cada dois anos, pela Fundação Alexander von Humboldt (AvH) para jovens cientistas de sucesso no exterior. Um dos critérios de seleção para conquistar a condecoração é que os pesquisadores tenham concluído o doutorado até seis anos antes de se inscreverem no concurso. Eles precisam ter excelentes resultados, e o comitê de seleção, composto por cerca de 25 cientistas de distintas disciplinas, também observa se os jovens pesquisadores tiveram seus trabalhos apresentados em publicações internacionais reconhecidas.

Com o prêmio (um financiamento de até 1,65 milhão de euros na pesquisa), os jovens cientistas têm a oportunidade de constituir um grupo de trabalho em uma instituição de pesquisa de escolha do premiado na Alemanha. Fica a critério do líder do grupo, vencedor do prêmio, administrar os recursos humanos e materiais da pesquisa durante o período proposto de cinco anos.

“Acho muito importante para um país investir em pesquisa e educação como a Alemanha está fazendo”, ressalta a cientista. Ferraz finaliza agradecendo a oportunidade e se colocando à disposição de outros jovens cientistas brasileiros para ajudá-los a também seguirem seu caminho.