Medicina 4.0: um brinde à saúde na era da inteligência artificial

© DAAD/Volker Lannert

A medicina não será a mesma com as transformações por que vem passando por conta da introdução de novas tecnologias digitais, principalmente a inteligência artificial. Por Ana Paula Katz Calegari

Esse novo momento vem contribuindo para que a área médica tenha ao seu dispor novos artifícios não apenas para a prevenção, monitoramento e cura de doenças, mas também em suas áreas administrativas. A medicina 4.0 surge, portanto, para trazer mais eficiência e eficácia à medicina e, consequentemente, mais benefícios aos pacientes.

Esta temática esteve presente durante o workshop internacional “Artificial Intelligence for Neurology and Anesthesia Applications”, realizado na capital paulista, no final de março com parceria do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH São Paulo). O evento, organizado pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e pela Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (FAU), contou com especialistas que abordaram as principais tendências em inteligência artificial no campo da neurologia e da anestesia.

Em entrevista ao DWIH São Paulo, eles deixaram suas impressões sobre os principais aspectos e desafios dessa nova realidade.

 

Prof. Dr. med. Christian Jeleazcov, da Faculdade de Medicina da Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (FAU)

A medicina em fase de transformação, atendimento adaptado e casos de sucesso

Na sua opinião qual o papel da inteligência artificial na medicina?
A medicina encontra-se em uma fase de transformação. Para manter, melhorar e personalizar a qualidade da assistência médica, é indispensável a identificação antecipada de tecnologias aplicáveis como a inteligência artificial, bem como sua implementação no atendimento médico. A digitalização do setor medicinal, que começou há alguns anos, está sendo agora implementada de forma geral. Não há dúvidas de que ela ganhará cada vez mais importância no âmbito da medicina. Essa tecnologia ajuda a identificar ou implementar, em escala, modelos e processos suficientemente padronizados nas áreas de administração, diagnóstico e terapia.

Medicina 4.0:  casos de sucesso
A inteligência artificial já é utilizada com sucesso, por exemplo, em métodos 3D para a identificação e medição de estruturas de tecidos patológicos nas áreas de radiologia, histologia e oftalmologia. Vem sendo também aplicada na cardiologia, na identificação e monitoramento de casos de insuficiência cardíaca. Na área terapêutica, destacam-se a utilização da robótica na cirurgia e na urologia, bem como a geração de ferramentas inteligentes na área da terapia intensiva. Outros exemplos são a geração de cartas de consulta e receitas ou a representação de dados sobre o atendimento médico. Futuramente, a utilização da inteligência artificial se estenderá a todas as áreas da medicina que permitem uma padronização adequada.

O que a medicina e os pacientes podem esperar dessa nova realidade? Quais são os principais desafios?
Na área da medicina, abre-se uma variedade de oportunidades diagnósticas e terapêuticas, enquanto os pacientes podem esperar um atendimento médico adaptado cada vez mais a suas necessidades pessoais. Mas vale a ressalva: primeiramente, teremos de aprender e experimentar os benefícios, bem como os limites dessa tecnologia.

Comente sobre o workshop internacional “Artificial Intelligence for Neurology and Anesthesia Applications”.
O diálogo intensivo entre os participantes demonstrou novas possibilidades de aplicação na detecção de estruturas de tecidos patológicos nos exames de ressonância magnética, bem como na identificação de transtornos motores em pacientes com doenças degenerativas do sistema nervoso central. Além disso, foram apresentadas tendências atuais e perspectivas para o futuro da terapia em anestesiologia automatizada à base de medicamentos como melhoria da medicina personalizada. O momento também possibilitou apresentação de projetos bilaterais para o desenvolvimento nessas áreas.

 

Armando Lopes, Country Head Siemens Healthineers

De portas abertas: novas oportunidades e modelos de negócios

Inteligência artificial na medicina:
A inteligência artificial traz inúmeras oportunidades, desde a detecção de grupos de risco, predição de doenças, suporte ao diagnóstico e tratamento, até o acompanhamento de cuidados. Também do ponto de vista operacional, pode monitorar processos, propor otimização de ativos, reduzir e até eliminar desperdícios.  Ela se tornará uma grande aliada da gestão de saúde populacional. É uma realidade muito empolgante e, sem dúvida, também é desafiadora porque abre novos horizontes para os profissionais, para as pessoas e vem suportar uma transformação em curso e necessária no setor de saúde.

O que a medicina e os pacientes podem esperar dessa nova realidade? Quais são os principais desafios?
Principalmente para os pacientes, que esse progresso chegue até eles. No fim do dia é em benefício do cidadão-paciente que todos esses esforços são dispensados. Sobre os desafios: é importante sempre estar atento a um mundo em transformação, em uma velocidade cada vez maior e seguir pioneiro em inovação.

Medicina 4.0: modelos de negócios:
A Siemens Healthineers possui um amplo portfólio de diagnóstico in-vivo e in-vitro e soluções para terapia avançada, fazendo com que, por meio da digitalização e de novos modelos de negócio, a tecnologia seja um grande gerador de valor para saúde, melhorando desfechos, resultados e reduzindo custos.

Comente sobre o workshop internacional “Artificial Intelligence for Neurology and Anesthesia Applications”.
Esse tipo de evento é fundamental para o crescimento científico de nosso país com reflexos diretos na qualidade clínica e operacional, além de colaborar com a ampliação de acesso à saúde. Participamos ativamente na construção desse workshop, que agora também evoluiu para grupos de trabalho. São cinco frentes definidas: anestesia com foco em automação; radiologia intervencionista; inteligência artificial aplicada à radiologia; estudo de doenças neurodegenerativas e aplicações clínicas e de fluxo.

 

Prof. Dr. Giovanni Guido Cerri, do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da USP e presidente do Conselho Diretor do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da FMUSP

A academia de olho na inteligência artificial

Qual o papel da inteligência artificial na medicina?
A inteligência artificial irá transformar a forma como trabalhamos hoje. Ou seja, será um instrumento para ajudar os médicos e a saúde em geral, utilizando-se de artifícios mais precisos e mais produtivos. Podemos dizer também que a inteligência artificial é um dos temas mais discutidos na academia hoje e todas as áreas serão impactadas pelas suas inúmeras aplicações.

O que a medicina, os estudantes e pacientes podem esperar dessa nova realidade? Quais são os principais desafios?
Uma revolução tanto na forma de atender o paciente, quanto em formas de ensinar e pesquisar. Os estudantes devem estar preparados para a transformação da sua profissão e os pacientes, os benefícios dessa inovação tecnológica. Sobre os desafios, é preciso estar atento às rápidas mudanças da era digital, pois quem não estiver preparado vai ficar para trás.

Comente sobre o workshop internacional “Artificial Intelligence for Neurology and Anesthesia Applications”. 
O workshop demonstrou o enorme potencial da aplicação da inteligência artificial em neurologia e anestesia. As duas especialidades serão beneficiadas de forma direta e os especialistas terão que incorporar as possibilidades desenvolvidas para um trabalho eficiente. A possibilidade de trocar experiências, desfrutar do conhecimento desenvolvido em outras instituições, estimular os jovens pesquisadores a interagir e criar pontes na ciência foram fundamentais para o desenvolvimento do conhecimento e das pessoas.