Nova gestora executiva do DWIH São Paulo aposta na diplomacia científica
© Uni Münster
Após dez anos na direção do Centro Brasileiro da Universidade de Münster (seis deles na Alemanha), Anja Grecko Lorenz assumiu como gestora executiva do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo no final de junho. Enquanto ainda se adapta à dinâmica da nova cidade – ela admite sentir falta de vir ao trabalho de bicicleta, por exemplo – já desenha o caminho pelo qual deseja levar a instituição.
Segundo Grecko Lorenz, sua principal preocupação é fortalecer o DWIH São Paulo como ator da diplomacia científica – o mundo enfrenta múltiplas crises, diz ela, e o Brasil e a Alemanha deveriam aproveitar essa oportunidade para impulsionar sua cooperação de forma ainda mais decisiva. “Estou pronta para experimentar novas abordagens, repensar práticas existentes e fortalecer ainda mais os impactos do DWIH.”
Leia, a seguir, uma entrevista com a nova gestora executiva, em que ela fala sobre as prioridades para os próximos anos, a visão sobre o atual estágio da cooperação Brasil-Alemanha e o papel do DWIH São Paulo na interlocução com universidades, instituições de pesquisa, empresas e startups dos dois países.
Como tem sido a experiência de voltar ao Brasil, pessoal e profissionalmente?
Fiquei seis anos na Alemanha, e estou de volta ao Brasil há poucas semanas. Sou brasileira-alemã, nasci no Rio de Janeiro. Mas essa não é uma simples volta: saí de uma cidadezinha universitária no noroeste alemão para uma das maiores metrópoles latino-americanas! Ainda estou me adaptando – e, claro, sinto falta de andar de bicicleta todos os dias. Münster é conhecida como uma cidade das bicicletas: todo mundo pedala para ir ao trabalho ou à universidade. Por outro lado, estou muito feliz de estar de volta a São Paulo – uma cidade que adoro pelo dinamismo, diversidade e por ser um importante centro econômico, cultural e científico do Brasil.
Profissionalmente, também estou muito feliz, por poder estar mais em contato com pesquisadores e com a comunidade científica aqui no Brasil. Acho que mudanças são boas, em todos os sentidos, e estou animada com as novas oportunidades que este retorno trará.
O que despertou seu interesse em assumir o cargo de gestora executiva do DWIH São Paulo?
Sou entusiasta do DWIH desde 2013, quando coordenei a programação científica do Centro para o Ano da Alemanha no Brasil e acompanhei o desenvolvimento e fortalecimento do DWIH, junto com todos os cooperadores que haviam acabado de se mudar para a sede. O DWIH é uma raridade institucional: existem apenas cinco pelo mundo, e não há no Brasil uma instituição equivalente de outro país. Por ser um ponto de articulação da cooperação científica entre Brasil e Alemanha, acredito que o DWIH São Paulo merece ainda mais visibilidade. A posição de gestora executiva oferece muito espaço, junto com Katharina Fourier, que também dirige o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) no Rio de Janeiro, para fortalecer o intercâmbio e a cooperação entre os dois países em temas importantes para o futuro.
Gosto muito do trabalho participativo, em equipe, que temos no Centro. A colaboração e a troca de experiências são muito marcantes no DWIH, e quem nos visita percebe isso: cada cooperador representa uma instituição diferente, mas atua no DWIH em prol de um mesmo objetivo – ampliar a cooperação científica, acadêmica e em inovação entre Brasil e Alemanha, além de contribuir para o desenvolvimento dos dois países. Aprendemos diariamente e, ao mesmo tempo, ajudamos nossos públicos-alvo a expandir conhecimentos e a impulsionar inovações.
De que forma sua atuação como diretora executiva do Centro Brasileiro da Universidade de Münster a preparou para os desafios à frente do DWIH São Paulo?
As duas instituições têm em comum a missão de promover a cooperação acadêmica e científica entre Brasil e Alemanha – no caso do Centro Brasileiro, especificamente com Münster. Lá, apoiei pesquisadores de diferentes áreas que tinham colaborações com instituições brasileiras e que se integraram ao Centro como membros. No DWIH, contamos hoje com 32 cooperadores – universidades de excelência, centros de pesquisa e agências de fomento –, o que amplia bastante a diversidade institucional e temática. Ainda assim, a rede de contatos que construí em Münster, tanto no Brasil quanto na Alemanha, será essencial para meu trabalho atual.
No Centro Brasileiro, a reciprocidade – o intercâmbio em ambas as direções – era uma questão importante para nós. Por isso, sempre nos empenhamos para que mais pesquisadores de Münster viessem ao Brasil para pesquisar ou lecionar – os quais mais tarde se revelaram multiplicadores ideais para a boa cooperação com o Brasil. Gostaria de continuar a fortalecer essa abordagem no DWIH São Paulo.
Quais você considera serem os principais desafios futuros do DWIH São Paulo? Há áreas específicas que já identifica como prioritárias?
Neste início, considero importante termos liberdade para repensar formatos e levantar novas questões. Quais oportunidades surgiram que não existiam alguns anos atrás? Que novos modelos de colaboração ou formatos de eventos podemos experimentar? Onde há potencial ainda pouco explorado? O que o DWIH São Paulo pode oferecer?
Na minha opinião, é mais importante do que nunca fortalecer o papel do DWIH na diplomacia científica. O que torna o DWIH especial é o seu papel abrangente: ele se destaca por combinar as diferentes áreas de atuação dos apoiadores e parceiros de cooperação, criando assim sinergias. Como já foi dito, o mundo enfrenta múltiplas crises simultâneas que geram grande insegurança e incerteza. A Alemanha e o Brasil devem aproveitar a oportunidade para continuar a promover sua parceria de décadas, baseada na confiança, nas áreas da ciência e do ensino superior, e se posicionar melhor social e tecnologicamente para o futuro.

Estou pronta para experimentar novas abordagens, repensar práticas existentes e fortalecer ainda mais os impactos do DWIH. Penso também no uso da inteligência artificial e no maior aproveitamento dos dados para orientar nossas atividades, por exemplo, para identificar parceiros relevantes e estabelecer conexões mais específicas – além dos nossos contatos existentes, a fim de fortalecer e ampliar nossas redes de forma sustentável. Além disso, é essencial identificar as áreas temáticas de alto potencial para ambas as partes e criar ofertas mais direcionadas para pesquisadores, professores, jovens profissionais e representantes de empresas e startups – não apenas no Brasil, mas também na Alemanha.
No futuro, gostaria de abordar mais profundamente o tema da inovação, especialmente no que diz respeito ao empreendedorismo baseado na ciência, às startups e à economia voltada para a pesquisa. Na Alemanha e no Brasil, há muitas novas abordagens para melhorar a integração entre ciência e economia, promover a transferência de conhecimento e tecnologia e fortalecer os chamados ecossistemas de inovação. Gostaria de fortalecer o intercâmbio entre os agentes de inovação na Alemanha e no Brasil, pois há muito a aprender uns com os outros e o DWIH oferece boas condições para isso. Ele pode reunir atores e criar conexões – e certamente podemos desenvolver ainda mais ofertas para startups e para empresas com atividades de pesquisa.
Como avalia o papel atual do DWIH São Paulo na promoção da cooperação científica entre Brasil e Alemanha? Em sua opinião, o que ainda pode ser aprimorado?
Uma tarefa central do DWIH é promover, no Brasil, a Alemanha como lugar de pesquisa – e isso está se tornando cada vez mais importante, dada a crescente concorrência. O DWIH é um hub para as principais instituições de pesquisa alemãs, uma vitrine que outros países ainda não têm no Brasil. Na minha opinião, ainda há muitas oportunidades para fortalecer ainda mais nossa visibilidade no Brasil.
Para mim, o conceito de reciprocidade também é importante aqui. O conhecimento sobre o cenário de pesquisa brasileiro na Alemanha ainda é limitado, como pude constatar repetidamente ao longo dos anos em que morei no país. O DWIH pode atuar como um catalisador para tornar mais visíveis os pontos fortes e a diversidade da pesquisa brasileira na Alemanha e atrair mais pesquisadores alemães para uma cooperação com o Brasil. Cientistas da Alemanha podem aprender muito com o Brasil: não apenas com os excelentes pesquisadores daqui, mas também em termos de criatividade e flexibilidade, mesmo diante de recursos escassos. Muitas instituições brasileiras já trabalham nessa direção há alguns anos – e devemos apoiar essa dinâmica.
Vejo grande potencial para uma cooperação mais intensa entre o Brasil e a Alemanha em diversas áreas do conhecimento – como medicina, pesquisa climática, direito ou digitalização, para citar apenas algumas. Projetos conjuntos permitem unir diferentes competências, recursos e culturas dos dois países – e isso o que aumenta a qualidade da pesquisa em todas as áreas.
Texto: Rafael Targino