‘Vozes pelo Clima’: Desinformação climática é indústria que alimenta negacionismo e tem efeitos na ponta

© Mapa Fotografia/Rogério von Krüger

A desinformação climática faz parte de uma indústria que se transforma todos os dias, alimenta o negacionismo e seus efeitos podem ser sentidos na ponta, quando acontecem grandes tragédias. Este é o balanço do painel “Narrativas climáticas e desinformação: agendas em disputa”, do evento “Vozes pelo Clima: Mídia, Ciência e Educação no Combate à Desinformação”, realizado no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no dia 11 de agosto. Durante todo o dia, especialistas em meio ambiente e comunicação se reuniram para entender o cenário de desinformação atual e discutir estratégias de mitigação a fake news sobre o clima.

O evento se iniciou com as boas-vindas do cônsul-geral da Alemanha no Rio, Jan Freigang, do enviado especial da Presidência da COP 30 para o tema Integridade da Informação, Frederico Assis, da coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, Christine Ruta, e da diretora do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo e do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) no Brasil, Katharina Fourier. Na sequência, a ativista climática Amanda Costa – jovem embaixadora da ONU e fundadora do Perifa Sustentável – fez uma flash-talk em que alertou sobre os interesses por trás da desinformação.

“Estamos vivendo uma situação em que todos podem se comunicar. Mas será que essa comunicação está acontecendo de forma coerente, verdadeira, correta? Quando ocorre a desinformação, pode ser apenas um erro, mas, outras vezes, ela é proveniente de grupos com interesses econômicos e políticos que têm o intuito de fazer com que essa informação seja disseminada e crie um alarme público”, disse.

 

Agendas em disputa

Moderado pelo jornalista André Trigueiro, o painel foi composto por Fernanda da Escóssia, professora de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e editora de Sumaúma Jornalismo; Anne Herrberg, correspondente no Brasil da emissora alemã ARD; Regine Schönenberg, diretora da Fundação Heinrich Böll no Brasil; e Marie Santini, fundadora do Laboratório NetLab e professora da Escola de Comunicação da UFRJ. Trigueiro lembrou de exemplos de negacionismo climático e reforçou que há métodos e interesses por trás da divulgação de notícias falsas. “Fake news exige investimento, estratégia e produção em escala industrial com interesses explícitos de depredar a reputação de uma pessoa, ou de um governo, ou de uma tese – no caso, a tese da ciência climática.”

Escóssia chamou atenção para o fato de que a desinformação representa uma quebra na integridade da informação, seja por meio ou da utilização de notícias parcialmente verdadeiras, ou de conteúdos distorcidos e fora de contexto. A jornalista argumentou que existe um “ecossistema de desinformação” que, no caso do meio ambiente, ainda resulta em um “negacionismo soft”: com o uso de influenciadores, tenta-se convencer a população de que os problemas causados pelas mudanças climáticas seriam apenas “efeitos colaterais” de um modelo econômico que estaria dando certo.

“Existe o que eu chamo de ‘roupa nova da desinformação’: o greenwashing, ou ‘maquiagem verde’. Isso acontece quando empresas e governos propagam que possuem selo verde ou produto carbono zero, mas têm práticas abomináveis na cadeia de produção, como trabalho análogo à escravidão ou produção de carne em áreas de desmatamento. A desinformação é uma prática que se transforma a cada dia”, afirmou.

Herrberg, por sua vez, demonstrou como as fake news e a desinformação podem causar efeitos devastadores entre a população. Destacada para cobrir as enchentes históricas do Rio Grande do Sul em 2024, a jornalista alemã relatou que notícias imprecisas, como a de que a administração pública estaria fiscalizando caminhões e equipamentos de ajuda, provocaram medo entre a população. “Realmente vimos como atrapalhou o trabalho das pessoas que estavam ali sem dormir e sem comer, durante 24 horas há dias, para fazer resgates. Muitas dessas notícias falsas vinham de fontes ligadas a uma determinada orientação política”, disse.

A jornalista fez uma ponte com o trabalho da emissora pública ARD na Alemanha, para demonstrar que este não é um problema exclusivo do Brasil. “Um clássico tem a ver com o mapa da previsão do tempo, com as temperaturas, que temos todas as noites no nosso noticiário principal. Temos que justificar que não manipulamos nem os mapas, nem as cores [que indicam a intensidade do calor], porque se diz que estaríamos usando cores mais agressivas ou exibindo temperaturas mais altas que não seriam corretas”, contou.

Batalha

Schönenberg, da Fundação Heinrich Böll, citou seis razões pelas quais acredita que a disseminação de notícias falsas e o negacionismo têm ganhado cada vez mais força na internet: 1) o debate científico e político sobre o clima tornou-se incompreensível para leigos; 2) a crença de que as catástrofes naturais são casos isolados acalma o medo; 3) no Brasil, a discussão sobre desenvolvimentismo e ambientalismo é muito polarizada; 4) o debate sobre regulamentação das plataformas foi politizado; 5) uma crise de governança global manifestada também pela pouca presença no Pacto Global Digital, uma iniciativa das Nações Unidas para regulação digital; 6) as tentativas (com pouco sucesso) de fundir a agenda digital com a agenda climática.

Para ela, no entanto, o que se trava hoje é uma “batalha epistemológica”, em que as notícias falsas são apenas uma vertente. “Nossas sociedades estão divididas, e existem várias narrativas concorrentes: o espaço fragmentado de notícias com o qual lidamos hoje, aliado a sistemas autorreferenciados, favorece a formação de comunidades fechadas que constituem um terreno fértil para a disseminação de notícias falsas, teorias da conspiração ou visões unilaterais. Porém, para que as fake news se tornem uma narrativa, é preciso movimento, liderança e muito dinheiro.”

Já Santini, do NetLab/UFRJ, destacou a face econômica da desinformação: para as big techs, o conteúdo de baixa qualidade e as informações falsas são um modelo de negócio. Uma pesquisa de 2021, realizada pela NewsGuard e pela Comscore, identificou que a receita total com monetização de sites de desinformação em todo o mundo estava, naquela época, na ordem de US$ 2,6 bilhões/ano. “Precisamos ir ao cerne do problema, que é a indústria. Ela não só ganha dinheiro, mas também tem como objetivo minar algo fundamental, que é a confiança nas instituições, especialmente na imprensa. Se perdermos a confiança, ela migra para algum outro lugar. Há uma estratégia dessas empresas de tirá-la da imprensa e da academia para levá-las às próprias plataformas, que passam a operar como principal fonte de informação. É assim que elas ganham dinheiro”, afirmou.

E a desinformação pode se dar em diversas frentes, seja com anúncios pagos (com greenwashing ou fraudes), com tráfego pago para produtores de notícias falsas ou mesmo anúncios em jornais locais de baixa qualidade. Santini citou exemplos de campanhas de influencers na época das enchentes no RS e chamou a atenção para “desertos de notícia” em regiões como a Amazônia Legal. “Um resultado importante das nossas pesquisas é que, em um grupo de 856 veículos de informação analisados na Amazônia, a maioria publica releases de políticos locais ligados ao agronegócio e se monetiza com mídia programática e anúncios das próprias prefeituras”, relatou.

Parte da série “Climate Talks – Diálogos Climáticos Brasil-Alemanha”, promovida pela Embaixada da Alemanha, o “Vozes pelo Clima” teve como organizadores da edição na capital fluminense o DAAD Brasil, o DWIH São Paulo, o Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas (PPGMC/UFRJ) e o Consulado-Geral da Alemanha no Rio de Janeiro.

Texto: Rafael Targino