Debate sobre liberdade acadêmica e diplomacia científica marca abertura do Liaison Office da UA Ruhr para América Latina
© UA Ruhr
Três eventos marcaram as festividades da abertura oficial do Liaison Office Latin America da Aliança Universitária do Ruhr (UA Ruhr) em São Paulo no dia 9 de junho. Após uma visita ao novo escritório no Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH), a comitiva da UA Ruhr debateu liberdade acadêmica e democracia com seus convidados no centro de inovação InovaUSP. Uma recepção noturna encerrou a programação.
A delegação de 10 representantes da UA Ruhr teve à sua frente os professores Barbara Albert, reitora da Universität Duisburg-Essen (UDE), Martin Paul, reitor da Ruhr-Universität Bochum (RUB) e Gerhard Schembecker, pró-reitor de Finanças da TU Dortmund University, representando o reitor da instituição, Manfred Bayer. As três universidades formam a Aliança Universitária do Ruhr (UA Ruhr).
Ao todo, as três atividades reuniram mais de 100 pesquisadores e representantes de instituições, dentre eles a diretora do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) no Brasil e do DWIH São Paulo, Katharina Fourier, a diretora do escritório da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG) para a América Latina, Christina Peters, o diretor do Fraunhofer Liaison Office Brazil, Manuel Steidle, a diretora da agência Germany Trade and Invest (GTAI), Gloria Rose, o presidente da Evonik Central & South America, Hendrik Schönfelder, o diretor executivo da Lanxess no Brasil e também vice-presidente da Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha (VDI Brasil), Robert Madersdorfer, a reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professora Sandra Almeida, e a vice-reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), professora Lia Bittencourt.
Estiveram igualmente representadas USP, UFABC, PUCRS, UFRJ, Unifai, Fiocruz, Goethe-Institut São Paulo, Academia Brasileira de Ciência (ABC), FAPESP e a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Sectes).
Visita ao DWIH São Paulo
Pela manhã, a comitiva foi recebida no DWIH São Paulo por Fourier e pelo presidente de seu conselho, Sören Metz, bem como pelos diretores científico e executivo do UA Ruhr Liaison Office, professor Matthias Epple e Marcio Weichert, respectivamente.
Após conhecerem as instalações do novo escritório, os visitantes e representantes de outras organizações cooperadoras do Centro Alemão (DFG, Fraunhofer, TUM, FU Berlin, Uni Potsdam) puderam trocar impressões e experiências sobre a cooperação em pesquisa e ensino entre Brasil e Alemanha. A importância estratégica de São Paulo na América Latina foi destacada durante a conversa, além de desafios como o aumento da visibilidade de ambos os países como destinos acadêmicos e barreiras como o idioma.
Evento de abertura sobre liberdade acadêmica
Na sequência, um evento na Universidade de São Paulo (USP) com quase 90 convidados do Brasil e da Alemanha colocou em pauta uma reflexão sobre liberdade acadêmica, democracia, seus desafios e oportunidades. Sob moderação do professor Matthias Epple, diretor científico do UA Ruhr Liaison Office Latin America, o novo escritório foi declarado aberto pela reitora Barbara Albert. Em seguida, saudaram a inauguração o professor Sérgio Proença, presidente da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani-USP), bem como Peters e Fourier.
Como reitora da universidade da aliança responsável pela representação na América Latina, Albert fez o discurso de abertura. “É um grande prazer contar com a presença de representantes de muitas de nossas instituições parceiras. Esperamos fortalecer e expandir ainda mais essa rede no futuro. Além de colaborações científicas, intercâmbio de estudantes e contatos com empresas, temos grande interesse em atividades relacionadas a projetos de inovação e tecnologia. Esses temas são aspectos importantes da nossa agenda na UA Ruhr. Estamos convictos que colaborações científicas desempenham um papel essencial no fortalecimento da liberdade acadêmica e dos valores democráticos”, disse a reitora da Universidade de Duisburg-Essen (UDE).
Keynote da reitora da UFMG
Após uma apresentação da UA Ruhr pelo coordenador da Aliança, Hans Stallmann, a reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Sandra Goulart Almeida, proferiu a keynote do encontro em defesa da liberdade acadêmica e da democracia. Almeida destacou o atual contexto de ataque a universidades por governos de todo o mundo e ressaltou o papel fundamental que estas instituições exercem na preservação da democracia.
“As universidades são muito mais do que instituições educacionais. São forças motrizes de transformação social e econômica. São espaços onde o conhecimento se converte em ação, impulsionando-nos rumo a um futuro mais inclusivo, pacífico e próspero”, disse, destacando que a internacionalização das instituições é um dos caminhos para enfrentar a situação.
“Quanto mais visível você for dentro e fora do país, mais apoio terá para enfrentar os ataques que vêm de todos os lados. Essas ações também promovem o pensamento crítico, por causa da compreensão cultural e da empatia. Na colaboração científica e acadêmica, compartilhamos não apenas conhecimento, mas também excelência.”
Para Almeida, programas de intercâmbio, como o Erasmus, são uma ferramenta de promoção da paz e compreensão internacional na Europa. “Esse tipo de colaboração, seja no ensino, na pesquisa ou no engajamento com a comunidade, entre países e dentro do amplo espectro da internacionalização, pode levar a uma disseminação mais rápida e ampla do conhecimento e das boas práticas”, afirmou a reitora da UFMG.
Debate
Os representantes das instituições que formam a UA Ruhr participaram de uma mesa-redonda após a palestra da reitora da UFMG. A eles, se juntaram a professora Kornelia Freitag, pró-reitora de Graduação da RUB, como moderadora, e Eduardo Zancul, vice-coordenador do InovaUSP. Para Zancul, cabe às instituições acadêmicas questionar o status quo. Para isso, é necessário liberdade. “Precisamos ser capazes de desenvolver a pesquisa com liberdade acadêmica e rigor científico, para que possamos trazer novas ideias. E precisamos também do pensamento crítico como mencionado na palestra. Mas precisamos fazer isso com uma postura crítica, para melhorar nossa sociedade, para trazer novas ideias em benefício dela”, disse.
Albert (UDE) ressaltou o significado das universidades para a cooperação internacional: “A ciência transcende as fronteiras. Cooperações em pesquisa e ensino não só podem promover o progresso das instituições científicas envolvidas, mas também gerar impacto social e impulsionar um futuro mais sustentável e pacífico.”
O professor Schembecker (TU Dortmund) enfatizou, por sua vez, que liberdade científica também significa poder fazer questionamentos, sem precisar pedir permissão. Este é um privilégio que exige responsabilidade. “Nossa pesquisa tem de entregar respostas a desafios urgentes da sociedade. Isso também inclui resiliência e aspectos como democracia, proteção ambiental e sustentabilidade. Questões tão complexas que só podem ser abordadas em redes internacionais”, considerou.
Já para o professor Paul (RUB), o conceito moderno de universidade é o de “universidade em rede”, em que alianças e interações fortalecem as instituições e ajudam a manter a liberdade acadêmica. “Se pensarmos nas universidades hoje, talvez sejamos as últimas instituições em muitas sociedades que ainda gozam dessa autonomia. Devemos também olhar para a nossa história e para a força que desenvolvemos ao longo dos séculos e que, na verdade, começa a desaparecer. É por isso que nós, como aliança universitária, junto com muitos outros aqui hoje, tentamos promover esse princípio da liberdade de circulação, que está intimamente ligada à liberdade de expressão e à liberdade de pensamento. Esses são valores centrais que devemos defender ativamente”, disse o reitor.
Almeida, por sua vez, afirmou que acredita na cooperação entre universidades, mesmo que isso soe otimista demais. “Geralmente digo que, como reitora, não posso ser pessimista. Se você for pessimista, todo mundo fica pessimista. Mas também sou realista. Havia um escritor aqui no Brasil que dizia: ‘o otimista é um tolo, o pessimista é um chato’. Então ele preferia ser alguém ao mesmo tempo realista e um pouco otimista. É o que tento fazer. Como se pode ser otimista? Buscando melhores formas de cooperar. Eu acredito na cooperação. Tenho trabalhado muito na área de cooperação internacional. Acredito que esse é o caminho e acho que temos muito potencial nisso”, declarou.
Texto: Rafael Targino
Edição e revisão: Marcio Weichert