Estudo analisa notícias falsas na campanha de vacinação de covid-19

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Pesquisa colaborativa entre a Universität Duisburg-Essen e a Unisinos observa a infodemia nos discursos contrários à imunização nas redes sociais no Brasil. 

No Brasil, cerca de 110 milhões de pessoas acreditam em pelo menos uma notícia falsa sobre a pandemia, de acordo com um estudo realizado pela Avaaz, uma rede para mobilização social global através da Internet. Esse número corresponde a sete em cada 10 brasileiros. A pesquisa aponta, ainda, que são as redes sociais as maiores responsáveis pela propagação de fake news.

Um projeto científico colaborativo Brasil-Alemanha, entre a Universität Duisburg-Essen e a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), procura desvendar as causas desse tipo de desinformação no Brasil. O objetivo do projeto é diminuir a assimilação das fakes news pela população.

“A equipe de pesquisadores analisará dados das plataformas de mídias sociais Twitter e YouTube com objetivo de identificar a desinformação, os rumores e as teorias da conspiração durante a infodemia de covid 19, no Brasil”, explica um dos pesquisadores-chefe da pesquisa, Stefan Stieglitz.

“Espalhando o antídoto – O Enquadramento da Covid-19 nas Redes Sociais Brasileiras Durante a Campanha de Vacinação”, na tradução literal para o português de “Spreading the Antidote – The Framing of COVID- 19 Vaccination Campaigns in the Brazilian Social Media Sphere” teve seu pontapé inicial em julho de 2021 e é financiado pela agência de fomento alemã DFG.

Equipes colaborativas Brasil-Alemanha

“Reunimos uma equipe motivada de cientistas, especialmente jovens estudantes de doutorado, que trabalham com a análise e a investigação de dados sobre o assunto”, conta Stieglitz. O cientista, especializado em comunicação e transformação digital, explica que a equipe alemã do projeto é responsável pela extração e análise de dados. Já os pesquisadores brasileiros, liderados pela professora Adriana da Rosa Amaral, trabalham na contextualização dos discursos e na identificação dos formadores de opinião nas distintas redes sociais.

Mas como seria o processo técnico de captação e investigação desses dados? O pesquisador alemão explica que eles são coletados por meio das interfaces das plataformas de mídia social, as chamadas APIs. Em seguida, a equipe coleta os dados com uma ferramenta SMART, que detecta e relata os vários indicadores de confiabilidade, desenvolvida pelo grupo de Stieglitz. Na sequência, os dados são preparados para uma análise qualitativa e qualitativa. É importante destacar que a remoção de “ruídos de fundo”, dados irrelevantes para análise, acontece nessa última fase. O especialista em mídia e transformação digital ressalta ainda que todos os protocolos de leis de proteção de dados são considerados nesse processo.

Apesar do pouco tempo de andamento do projeto, os primeiros resultados já mostram evidências dos tipos de discursos contrários à vacinação mensurados nas redes. De acordo com o professor Stieglitz, não é apenas a narrativa de direita (populista) que levanta a bandeira contra a imunização compulsória, há ainda discursos de grupos que acreditam que o corpo tem de lidar com o vírus por conta própria. Para eles, a infecção é um processo natural.

“A disseminação de tais narrativas é, em última análise, um sério problema para a aceitação das campanhas de vacinação”, afirma o cientista.

Infodemia sutil, mas eficaz

O medo das vacinas e as possíveis reações da imunização por parte da população brasileira também é objeto de estudo da pesquisa. “O fato de políticos de alto escalão formularem temores sobre os efeitos das vacinas provavelmente reduziu significativamente a aceitação dos imunizantes em certos grupos”, explica. Para o pesquisador, além da desinformação “absurda” como dizer que após a aplicação da vacina a pessoa se tornaria um jacaré, há também um processo de infodemia mais sutil como sugerir a ineficácia de imunizantes.

Ademais, completa Stieglitz, há ainda um número crescente de pessoas que se descrevem como especialistas epidemiológicos ou médicos, mas, na verdade, não têm nenhum conhecimento científico. “Essas falas [dos supostos especialistas] podem ser particularmente relevantes porque é mais difícil identificá-las e refutá-las como notícias falsas”, destaca.

O pesquisador alemão salienta que, portanto, o objetivo do estudo é descobrir diferentes padrões de disseminação das “fake news” e deduzir quais narrativas são perigosas e quais líderes de opinião são influentes nessa condução. Na visão de Stieglitz, esse trabalho é ainda mais relevante num país como o Brasil em que as mídias sociais desempenham um papel relevante na comunicação.

“No futuro, em situações de crises sanitárias como a atual, os resultados da pesquisa podem ajudar a descobrir a desinformação rapidamente e a lidar com ela de maneira direcionada”, enfatiza. “Acima de tudo, queremos fortalecer os mais fracos da sociedade, sejam eles grupos indígenas ou pessoas em condições precárias de vida”, completa.

Esse é o segundo projeto em parceria entre a Unisinos e a Universität Duisburg-Essen que estuda conteúdo de mídias sociais. Desde 2019, as duas instituições trabalham no Projekt RISE_SMA, analisando o uso das redes sociais em situações de crise social.