Educar e retomar o processo civilizatório: a receita para evitar a violência no Brasil

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A problemática dos círculos viciosos em segurança pública e o aumento da criminalidade no Brasil serão o foco da palestra de Alba Zaluar, professora da UERJ, que participa do 8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação nos dias 30 e 31 de outubro. Zaluar, em entrevista ao DWIH São Paulo, trouxe insights sobre essa dura realidade.

Vivemos em tempos cada vez mais radicais, em que a violência e os conflitos estão deixando suas marcas na sociedade. Tanto no Brasil quanto mundialmente, as manchetes diárias são a prova de uma situação alarmante que precisa ser discutida e revista.

Na análise deste momento atual, Alba Zaluar, professora titular de antropologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), participa do 8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, que acontece nos dias 30 e 31 de outubro na capital paulista.  Sob o tema central “Radicalization and Violence: Perspectives and Prevention Approaches”, o evento conta com organização do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH São Paulo) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Saiba mais sobre o evento aqui!

Em entrevista ao DWIH São Paulo, Zaluar, que faz no dia 30 de outubro a primeira keynote com o tema “Vicious Circles in Public Security and the Increase of Crime in Brazil”, adiantou alguns pontos importantes sobre os desafios em segurança pública e o aumento da criminalidade no Brasil e no mundo.

Como você avalia a violência e a radicalização tanto no Brasil quanto mundialmente?

O termo radicalização tem muitos significados ao longo da história. Já foi mais importante para expressar movimentos que tornam mais extremos seus compromissos com valores e práticas de partidos ou movimentos políticos. Hoje tem sido mais usado na Europa para expressar a preocupação com o fundamentalismo religioso, por sua vez conectado a uma nova forma extremista de fazer política: o terrorismo.

Assim sendo, é preciso dizer que, no Brasil, não temos movimentos terroristas, mas há muita radicalização na política, não ligada à violência física, que criou uma polarização divisória na sociedade brasileira que dificultou muito a defesa de propostas que fossem de interesse coletivo. A mais dramática é a divisão de brancos versus negros que nega a forma pela qual os brasileiros classificavam as numerosas cores de pele existentes no país por conta da miscigenação. Foi introduzida a divisão racial dos Estados Unidos considerada ‘mais verdadeira’. Outra foi a classe média versus os trabalhadores, em que a classe média foi apresentada como “odiosa” e entregue à direita, enquanto se justificava ou negava a violência perpetrada no jogo mortal para tantos jovens pobres que tiveram acesso a armas e foram atraídos por organizações dedicadas aos negócios ilegais.

Houve então uma radicalização das classes médias e de trabalhadores vítimas de crimes, que passaram a apoiar a política de segurança repressiva para matar bandidos ou outro tipo de organização ilegal (milícias) que passou a controlar militarmente os territórios onde viviam. Já para os jovens, a radicalização tem o sentido de tornar a adesão à vida no crime mais completa, desenvolvendo a “disposição para matar”, como eles dizem. Botar a arma na cintura, ou seja, possuir e portar ilegalmente uma arma é o sinal exterior dessa adesão.

Qual é a influência da radicalização e da violência em nossa sociedade de hoje, na sua opinião?

 Todas essas radicalizações têm efeitos colaterais e, na maior parte das vezes, adversos por acentuarem as divisões e os ódios. No caso da política, por criarem ruídos e desentendimentos desnecessários nos jogos políticos; no caso da vida no crime, por elevar muitíssimo a taxa de homicídios e outros crimes violentos dos quais as principais vítimas são os mais pobres. Seria preciso ir além dos interesses privados e dos valores não contextualizados, ou seja, dos valores universais e direitos fundamentais, o que obrigaria a pensar sobre a violência pelo lado dos limites que tais valores e direitos imporiam à liberdade individual ou coletiva.

Como fica a segurança da sociedade nesse contexto?

Ter uma vida minimamente segura nesse contexto depende de onde se mora. Certamente não nas favelas do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras onde os moradores estão expostos a tiroteios entre policiais e traficantes, além dos que envolvem diferentes facções do tráfico. A situação vivida hoje nesses locais é dramática. Mortos e feridos nos tiroteios deixam esteiras de sofrimento e estresse pós-traumático. Isso dificulta ainda mais a vida em locais com serviços públicos de baixa qualidade, principalmente no saneamento, vias com obstáculos para impedir a passagem de veículos que levariam pessoas com dificuldade de locomoção ou material pesado.

O barulho de tiros frequente os obriga a estar sempre alerta procurando um jeito de se proteger, o que nem sempre é possível. Há também a difícil relação com policiais que tratam moradores da favela, especialmente os jovens, como se fossem bandidos ou aliados deles. Reclamam do que chamam “esculacho”, uma forma grosseira e desrespeitosa de abordá-los para a revista em busca de armas e drogas.

Anteriormente, o Rio de Janeiro havia experimentado uma política que conseguiu baixar tanto a taxa de homicídios quanto o que se convencionou chamar de “letalidade policial”, ou seja, as mortes provocadas por policiais, antes classificadas como “autos de resistência”. Agora, embora a taxa de homicídio tenha baixado, a letalidade policial aumentou mais de 14%, o que revela um desequilíbrio ou incoerência entre as medidas tomadas para conter os assassinatos.

Na sua opinião quais são as perspectivas em relação à radicalização e à violência que vivemos hoje?

 O Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro informou que, nos primeiros sete meses de 2019, houve 1.075 autos de resistência, o maior número da série histórica. Isto sem contar com o fato de que os desaparecimentos também aumentaram, embora menos do que em São Paulo e em outros estados. Esse é o ponto crucial da questão. Houve, no discurso tanto do presidente da República quanto do governo do Estado, uma “licença para matar”, um incentivo à velha fórmula tão usada Brasil afora “bandido bom é bandido morto”. Mas que “bandidos”? Uma política de segurança coerente tem de ser integrada nos seus vários aspectos, que não se reduzem à ação policial nem, muito menos, aos confrontos armados com traficantes ou supostos bandidos que vivem nas favelas. Afirmar que a polícia é necessária para enfrentar traficantes armados é também simplificar a questão, embora seja verdade que a ação policial inibe a guerra entre as facções. Mas é preciso inicialmente investigar como as armas e as drogas ilegais chegam às favelas, que não as fabricam. Então, o problema deixa de ser estadual e passa a ser nacional e até mesmo transnacional.

É difícil para a população entender essa complexidade e muitos, sofridos e amedrontados pelos danos e perdas de pessoas queridas que vêm sofrendo ao longo de tantos anos, entram no modo “desespero” ou “pânico”, ideal para os manipuladores políticos e suas fórmulas simplistas, mais autoritárias, despóticas. O grande perigo é que se instale o terrorismo de estado, com a população da favela com medo de sair de casa por causa dos helicópteros e do snipers.

Como devem ser as abordagens e os métodos de prevenção?

Na radicalização ligada à violência, já está mais do que na hora de colocar o foco no controle desses crimes, especialmente nos casos de homicídio e estupro, uma vez que são os que mais provocam sofrimento entre os pobres, ainda que sejam os menos investigados pela polícia.

Há muitos projetos de prevenção em curso, alguns com apoio governamental, agora cada vez menor, e outros levados adiante por ONGs. São projetos esportivos, artísticos e culturais que tentam dar alternativas de pertencimento e renda para os jovens. Mas seria preciso que houvesse mudança no sistema escolar para que nem tantos jovens abandonassem a escola no ensino fundamental e médio. Essa mudança é crucial para abrir oportunidades no ensino técnico e universitário e, consequentemente, no mercado de trabalho com mais alternativas e melhores salários. Além da investigação, controle e restrições ao tráfico de armas, precisa-se, portanto, de um grande investimento público na formação dos jovens, marcados pela atração do prestígio adquirido via hipermasculinidade e via o poder conquistado pelos instrumentos que podem matar o rival. Esta formação deve retomar o processo civilizatório, que sofreu um grande retrocesso nas últimas décadas. Portanto, deve estar voltada para a cidadania ou o etos civilizado. Além disso, a prioridade maior deveria ser a reforma urgente e absolutamente necessária das nossas forças policiais.

Mais informações, a programação completa e inscrições aqui!

Por Ana Paula Katz Calegari

8º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação

Datas: 30 de outubro das 8h30 às 17h00 e 31 de outubro das 9h00 às 16h00
Local: auditório da FAPESP | Rua Pio XI n º 1500 – Alto da Lapa – São Paulo (SP)
Inscrições gratuitas: http://bit.ly/Dialogo2019