11º Diálogo Brasil-Alemanha: IA na saúde ajuda na detecção de doenças, mas traz desafios éticos

© Felipe Mairowski

O primeiro painel do 11º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, realizado nos dias 7 e 8 de maio em São Paulo, trouxe para o debate a questão da utilização da inteligência artificial (IA) na área da saúde e, em especial na medicina. Para os especialistas que participaram da discussão, ao mesmo tempo em que a tecnologia ajuda na detecção precoce de doenças e pode até prever enfermidades futuras, ela traz consigo implicações éticas que a sociedade precisa enfrentar.

Fizeram parte do painel os professores Paulo Mazzoncini de Azevedo Marques, da Universidade de São Paulo (USP), e Christiane Woopen, da Universidade de Bonn; além de Thais Melo, representante da empresa Boehringer Ingelheim. A moderação ficou a cargo de Anderson Rocha, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O professor da USP de Ribeirão Preto apresentou um dos projetos que desenvolve atualmente: o de uso da inteligência artificial para prever o risco de um paciente desenvolver, dentro dos cinco anos seguintes, Eventos Cardíacos Adversos Maiores (MACE), como infarto ou acidente vascular cerebral (AVC), a partir de dados extraídos de internações que, não necessariamente, tenham acontecido por motivos cardiológicos.

“Esses eventos, infarto, AVC, são altamente prevalentes. Eles estão entre as principais causas de mortalidade e morbidade hoje e são fortemente ligados ao estilo de vida. Se pudermos prever esse risco, poderemos implementar medidas preventivas para reduzir sua ocorrência”, afirmou Mazzoncini.

Outra aplicação da inteligência artificial, também em pesquisa recentemente na USP, é a análise de imagens de exames. Mazzoncini deu um exemplo relacionado a um possível câncer de pulmão. “A ideia é que, quando um paciente chegar ao hospital e realizar uma tomografia, essa imagem seja ser analisada para auxiliar o radiologista a identificar não apenas que se trata de um câncer, mas também qual subtipo. Isso pode ajudar a determinar a melhor abordagem terapêutica para o paciente”, disse. “Outra aplicação envolve prever a possibilidade de metástases. Se conseguirmos prever essa tendência com base nas imagens, poderemos fornecer informações valiosas aos médicos. Utilizamos métodos próximos ao deep learning para pré-processar e treinar modelos.”

Implicações éticas

A professora Woopen convidou os participantes a enxergarem a questão da IA por outro prisma: o da ética. Para ela, a medicina preditiva – aquela que prevê a doença que um paciente deve/irá ter – contém uma ambivalência ética que exige debate. E o avanço da tecnologia demanda que a discussão seja feita o mais breve possível.

Woopen alertou que avisar um paciente de que ele poderá desenvolver determinada doença transforma em responsabilidade o que seria destino. “Uma vez que você conhece o seu risco, ele não é apenas algo que pode acontecer com você, mas você se torna responsável caso não tenha uma atitude preventiva. Se você ficar doente, talvez a sociedade diga depois: ‘Bem, temos um sistema de saúde baseado na solidariedade, mas você poderia ter poupado esses recursos se tivesse se comportado de maneira adequada. Portanto, não vamos cuidar de você. Por favor, cuide de si mesmo’”, ponderou.

Por outro lado, a professora da Universidade de Bonn trouxe pesquisas que demonstram que boa parte das pessoas prefere saber o que pode acontecer – e, curiosamente, o motivo que as leva a isso é o mesmo que leva outros a quererem se manter ignorantes. Em um projeto, perguntou-se de maneira hipotética se pacientes de centros de detecção precoce de transtornos mentais gostariam de saber o risco de adoecerem no futuro. “Quase metade disse que sim, 10% aprovaram com condições, e 35% rejeitaram. As razões eram bastante semelhantes. Os que gostariam de saber disseram que isso promoveria suas autonomias e ajustaria seus comportamentos. Os que não gostariam responderam que isso afetaria suas autonomias, pois ficariam com medo e pressionados a se comportarem de uma maneira específica”, relatou.

Indústria

Já Melo, da Boehringer Ingelheim, destacou que a empresa tem inúmeros projetos na área de IA. Ela ressaltou, porém, que uma das principais atividades desenvolvidas é o treinamento de funcionários e usuários para utilizar a tecnologia, indicando quais prompts serão os mais efetivos, as melhores e as piores práticas etc. A Boehringer Ingelheim também vem usando inteligência artificial na tradução de documentos para envio a autoridades internacionais, no apoio a equipes que precisam responder a consultas de órgãos sanitários e de aconselhamento ético e, também, na farmacovigilância.

A empresa também tem usado IA na gestão de conformidades. “Às vezes podemos identificar que algo não foi feito corretamente de acordo com um protocolo ou com um procedimento interno ou externo, e temos que entender realmente o que aconteceu. Nesse caso, usamos um aplicativo de refinamento de não conformidades para melhorar as descrições delas e, então, otimizarmos os processos de revisão, aumentarmos a clareza e investigarmos a causa raiz. Ele está sendo usado há um ano e meio, aumentando a eficiência”, contou.

Ela destacou também um projeto, com uso de IA, que tem potencial para salvar vidas. “Uma startup nacional, com quem fizemos uma parceria, tem um aplicativo para melhorar o diagnóstico de infarto do miocárdio. Quando um paciente chega ao pronto-socorro, é feito um eletrocardiograma, que é fotografado e enviado para o aplicativo. Em segundos, uma análise de IA é feita, e o profissional recebe uma nota indicando se há algo errado ou não”, disse.

Diálogo Brasil-Alemanha

O 11º Diálogo Brasil-Alemanha foi uma realização do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Reunindo especialistas de Brasil e Alemanha, da academia e da indústria, o Diálogo teve como tema em 2025 “Artificial Intelligence: Promises, Expectations, and Limitations in Science and Society”.

Quatro tópicos nortearam o evento: a IA na medicina e na saúde, inteligência artificial em ciência e engenharia, regulação de impactos e seu uso nas ciências humanas. A ideia era elucidar, de maneira interdisciplinar, as implicações da tecnologia e os caminhos que precisam ser seguidos para que sejam mitigados os efeitos negativos de sua utilização.

Texto: Rafael Targino

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