Mudanças climáticas em áreas urbanas ocupam agenda Brasil-Alemanha

Regiões metropolitanas são foco de pesquisa Brasil-Alemanha que tem como objetivo minimizar os efeitos climáticos e de poluição atmosférica provenientes dessas áreas. Para isso, políticas públicas, pesquisas e projetos com áreas interdisciplinares, além da triangulação entre administração pública, academia e sociedade são aspectos fundamentais para o progresso e soluções em favor do meio ambiente em áreas urbanas.

As mudanças climáticas em áreas urbanas estão no foco das discussões. Atualmente, cerca de 60% da população mundial vive nessas áreas e, em 2050, elas serão tomadas por 80%, o que implica diretamente o enfrentamento das mudanças climáticas em regiões metropolitanas. Na Alemanha, existe uma longa tradição na proteção ao meio ambiente e no engajamento para a sustentabilidade, principalmente por haver uma legislação bem elaborada e ambiciosos projetos voltados a questões ambientais. Tendo o assunto como pauta, o país vem desenvolvendo, portanto, diversos projetos que estão ganhando o mundo, em especial parcerias com o Brasil, impulsionando o tema para uma agenda Brasil-Alemanha.

Projeto Klimapolis: um exemplo bilateral que saiu do papel e ganhou as ruas

Com o projeto Klimapolis , uma cooperação bilateral entre Brasil e Alemanha, financiada pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa da Alemanha (BMBF ),  a questão do clima em áreas urbanas saiu do papel, ganhou as ruas e, no fim de maio de 2019, após 18 meses do projeto, concretizou-se com a inauguração de um laboratório no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP ), através de um acordo assinado com o Instituto Max Planck de Meteorologia  (MPI-M) na Alemanha.  E o projeto e suas facetas em prol do clima urbano não param por aqui!

Segundo Nico Caltabiano, gerente de projetos do Klimapolis, o objetivo inicial foi estabelecer uma parceria ativa entre instituições alemãs e brasileiras no estudo de impactos das mudanças climáticas e da poluição atmosférica em áreas metropolitanas no Brasil.  “As colaborações entre os pesquisadores alemães e brasileiros têm sido fantásticas, com alguns artigos científicos já publicados e projetos de pesquisa financiados. Um dos maiores desafios do Klimapolis é o seu aspecto transdisciplinar, que envolve ciências sociais e naturais para um mesmo objetivo. Esse é o fato do projeto que temos mais orgulho. Ou seja, pesquisadores dessas áreas trabalhando juntos para achar soluções para problemas ambientais”, explica Caltabiano.  A questão transdisciplinar também é enfatizada pela professora Anita Engels, da Universidade de Hamburgo , uma das líderes do projeto e codiretora do laboratório Klimapolis.  “As ações do laboratório servem, por meio de uma colaboração interdisciplinar, em conjunto com iniciativas e stakeholders locais, para o desenvolvimento de ideias. Nesse contexto, pesquisa e prática devem influenciar-se mutuamente”.

Para Engels, o projeto Klimapolis é de suma importância já que metrópoles brasileiras representam modelos importantes com significância global. “Cidades como São Paulo tornaram-se objetos de pesquisa para interessados na conservação do clima. E muito mais relevante são os sujeitos da pesquisa – encontramos no Brasil um ambiente favorável com várias universidades e instalações de pesquisa não-universitárias, que se destacam por sua grande disposição para trabalhos colaborativos. Estamos muito contentes que o IAG-USP se tornou o nosso lar institucional. Partindo do Klimapolis, será possível desenvolver um laboratório para projetos de longo prazo, a fim de juntar nossos esforços e criar um espaço comum para pesquisas e experimentos.”

Sobre o futuro do Klimapolis, Caltabiano afirma: “A segunda fase do projeto irá também incluir outras áreas metropolitanas no Brasil, além de São Paulo, que era o foco da primeira fase. Já estamos formando uma rede de pesquisadores no Nordeste do país, juntando parceiros de universidades e instituições de pesquisa, além de órgãos ligados a governos municipais na região. Estamos também discutindo novas oportunidades para financiamento das pesquisas que queremos desenvolver nos próximos anos.”

Políticas públicas, networking e projetos interdisciplinares em prol do meio ambiente urbano

A preocupação com os efeitos climáticos está na pauta de vários governos. Por outro lado, algumas administrações não consideram esse assunto prioritário. Para Engels, o problema é ainda maior, pois, mesmo em governanças que consideram o clima global prioridade, a aplicação de medidas em prol da proteção climática fracassa. “Esse fato cria uma crescente noção de urgência que se manifesta, de forma nítida, em protestos globais atuais, como ‘Fridays for Future’,Scientists for Future’ e ‘Parents for Future’. Esperamos que a nossa pesquisa possa contribuir para essa virada”, complementa a professora da Universidade de Hamburgo.

Apesar das mudanças climáticas globais serem efetivamente uma questão planetária, como a população já vive majoritariamente em cidades, na opinião de Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP, o ideal é lidarmos com esta questão principalmente de modo local ou regional. Para ele, precisamos prioritariamente de políticas públicas para que possamos implementar uma forte redução de emissões em todas as áreas urbanas de nosso planeta. “O setor de transporte em áreas urbanas, por exemplo, é um grande emissor de gases de efeito estufa, e já existem tecnologias de baixo custo para mitigar estas emissões. Construir cidades mais eficientes em termos de logística e transporte é absolutamente necessário. Isso também inclui as novas edificações com maior eficiência energética, tanto para aquecimento como para resfriamento. Infelizmente, apesar de termos todos esses meios para caminharmos rumo a um futuro melhor nesse quesito, esbarramos em políticas contrárias que vão de encontro ao progresso do meio ambiente urbano. Do nosso lado, da pesquisa, estamos fazendo a nossa parte. Agora, a bola está na mão da administração pública”, explica o professor.

Para a professora Maria de Fátima Andrade, do IAG-USP, é preciso cada vez mais haver uma triangulação entre a universidade, a sociedade e o poder público para que essa temática seja priorizada e tenha progressos. “Do lado acadêmico, podemos ainda, por meio de nossos pesquisadores e estudantes, além das pesquisas e estudos, fazer com que as informações e descobertas cheguem à comunidade para que o assunto ganhe os holofotes e discussões. Além disso, é necessário transitarmos por diferentes áreas de conhecimento, vivenciando e potencializando a academia interdisciplinar, seguindo pelas áreas da engenharia, arquitetura, direito etc. O networking aqui é fundamental para potencializarmos e progredirmos com a temática do meio ambiente urbano, conseguindo, através da academia, colocar o assunto para a sociedade e para o setor público.”

Sobre a tendência global do aumento da população urbana e diminuição da população rural, a professora Andrade explica por que as áreas urbanas têm tido tanto crescimento em sua extensão quanto em população.  “As cidades continuam concentrando as maiores oportunidades em termos de emprego, acesso à saúde e educação, mas por outro lado não tem planejamento adequado e a questão do uso do solo é em geral muito influenciada pela questão econômica. Há uma grande pressão sobre áreas que deveriam ser protegidas, como próximas às nascentes, matas nativas e reservatórios de abastecimento de água.  Além disso, a distância entre a moradia e o trabalho resulta em um tempo longo de deslocamento, submetendo as populações a estresse e perda de tempo, bem como a uma exposição maior aos poluentes atmosféricos.”

De olho no laboratório Klimapolis

 

 

 

O laboratório Klimapolis é a evolução natural do projeto. Inaugurado oficialmente em 24 de maio de 2019, ele está instalado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) por meio de um acordo assinado com o   (MPI-M) na Alemanha.

O laboratório, partindo da situação em São Paulo, segundo a professora Engels, conseguirá desenvolver ideias de projetos e conceitos para pesquisas em mudanças climáticas em metrópoles brasileiras, focando também em outros problemas ambientais emergenciais, com destaque para a qualidade do ar, que tem representado um grande problema para a área da saúde. “Percebemos em São Paulo situações e acontecimentos extremos relacionados ao clima, os quais, associados à arquitetura e ao planejamento urbano, representam um fator importante para a cidade (criação de ilhas de calor, enchentes após chuvas torrenciais, falta de água em períodos de seca, por exemplo). Com a mudança do clima, esses desafios podem tornar-se mais agudos. Além disso, problemas como depósitos e incineração ilegais de lixo que, aparentemente, não apresentam relevância local, são responsáveis pela piora na qualidade do ar e contribuem para uma intensificação da mudança do clima”, complementa Engels.

Para a professora Andrade, o laboratório tem muito a contribuir. “Há um reconhecimento global da importância da qualidade do ar para a saúde da população, em especial nas grandes cidades. Em São Paulo relevantes  avanços foram alcançados após a implantação do Proconve  (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores)  na década de 80 e de outras medidas de redução de enxofre no combustível, além da mudança dos combustíveis em caldeiras de processos industriais, mas as concentrações ainda estão muito acima dos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por meio dessa parceria, diversos programas transdisciplinares serão desenvolvidos em conjunto com parceiros da Alemanha e do Brasil com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de cidades ambientalmente resilientes no Brasil. “O laboratório tem um enfoque especial na relação entre clima, poluição da água e do ar e atores sociais, e irá co-desenvolver com autoridades municipais e estaduais novas abordagens para o desenvolvimento de cidades sustentáveis e melhores estruturas de governança”, complementa Caltabiano.

por Ana Paula Katz Calegari