11º Diálogo Brasil-Alemanha: Discussão sobre regulação de IA avança no mundo, e governos já utilizam ferramentas no cotidiano
© Felipe Mairowski
Os especialistas convidados para o segundo painel do 11º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, realizado nos dias 7 e 8 de maio de 2025 em São Paulo, debateram as questões regulatórias da inteligência artificial (IA), que avançam em todo o mundo. Eles destacaram que, ao mesmo tempo, os próprios órgãos governamentais já usam IA generativa em suas atividades.
Estiveram no painel, moderado pela professora Indra Spiecker gen. Döhmann, da Universidade de Colônia, os professores Jeanette Hofmann (Freie Universität Berlin) e Juliano Maranhão (Universidade de São Paulo), além de Renata Mielli, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
Hofmann partiu da análise do Artificial Intelligence Act (AI-Act), que entrou em vigor em agosto de 2024 na União Europeia (UE), para discutir a linha evolutiva da regulamentação baseada em matrizes de risco, tal como foi desenhado o próprio AI-Act. Segundo ela, a análise e o gerenciamento de riscos são metodologias bem estabelecidas e são utilizados amplamente em regulamentações.
No caso da inteligência artificial, no entanto, há um problema adicional: a definição do que é IA ainda é muito instável. “A Comissão Europeia foi ambiciosa ao criar um ato que cobrisse todos os setores que utilizam IA atualmente ou que possam vir a fazê-lo no futuro, e definição de inteligência artificial teve que ser extremamente ampla e genérica. Além disso, as classificações de risco parecem ter sido produto de negociação política. A distinção formal entre análise de risco e gestão de risco desapareceu”, disse.
Dessa maneira, os próprios fornecedores de sistemas de IA passaram a ser os responsáveis por prever, mitigar e definir a aceitabilidade dos riscos. “O que acontece é que um mercado paralelo já surgiu antes mesmo da aprovação do AI-Act. Empresas começaram a oferecer serviços de conformidade para os fornecedores de IA, garantindo que cumpream as exigências da regulamentação”, afirmou, destacando, inclusive, o caso de uma empresa que usa a própria IA para garantir conformidade.
Brasil
Mielli, do CGI.br, apresentou o panorama regulatório do Brasil, que, tendo como ponto de partida o AI-Act da União Europeia, tenta criar um marco nacional sobre inteligência artificial. Para ela, o projeto é “uma proposta oportuna e transformadora”, e possui diferenças fundamentais em relação à proposta europeia: além de descrever obrigações e processos de maneira diferente da UE, também não trata as matrizes de risco de maneira isolada.
“O projeto coloca o ser humano no centro das aplicações de inteligência artificial, garantindo um conjunto robusto de direitos fundamentais. O Brasil está tentando construí-lo de forma democrática, garantindo um caminho sólido para a era digital, equilibrando proteção de direitos, confiança nos sistemas de IA e um ecossistema regulatório colaborativo”, disse.
A especialista disse que o país está tentando construir uma estratégia nacional de inteligência artificial. “Um dos exemplos é o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em julho do ano passado. Esse plano estabelece diretrizes estratégicas para o desenvolvimento da IA com foco em inclusão digital e sustentabilidade. A proposta é chamada de ‘IA para o bem de todos’, priorizando pesquisa, infraestrutura, educação e empreendedorismo.”
Uso no Judiciário
Enquanto governos debatem as implicações, riscos e regulações da inteligência artificial, órgãos dos próprios governos já utilizam as ferramentas de IA em suas atividades, apontou o professor Maranhão. Outros já têm marcos regulatórios, como o Banco Central (em sistemas de análise de crédito) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). De acordo com o docente da USP, o setor público brasileiro é o que mais utiliza IA.
O Poder Judiciário estabeleceu, ainda em 2020, regras para o uso de sistemas tradicionais de inteligência artificial, mas, depois de escândalos como a redação de uma decisão judicial em IA generativa, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu revisar a regulamentação. Um estudo, liderado por Maranhão, procurou saber como este tipo de IA estava sendo usada entre juízes e servidores públicos. Foram consultados cerca de 10% dos magistrados do país (cerca de 1.600), além de 18.000.
“Metade dos juízes utilizava a IA generativa de maneira privada e, desse total, 30% em suas atividades profissionais. Muitos utilizavam IA adequadamente, como para resumo de documentos, elaboração inicial de sentenças, posteriormente revisadas. No entanto, o uso da IA como motor de busca jurídica sem revisão do conteúdo gerado era preocupante. Sem treinamento adequado e política de governança, há um risco elevado de incorreções. Aqueles que já utilizavam a tecnologia tinham uma baixa confiança nos resultados produzidos, já que o domínio jurídico exige expertise e precisão”, afirmou.
Os achados da pesquisa foram fundamentais para a criação de um marco regulatório no Judiciário. “Duas questões principais surgiram. Deveriam os juízes revelar o uso de IA generativa ao redigir suas decisões? Os juízes deveriam ser proibidos de utilizar IA não contratada oficialmente pelos tribunais? No caso da primeira, determinou-se que a transparência sobre a IA deve ser integralmente aplicada no Judiciário, garantindo que o público saiba do uso dessas ferramentas. Já para a segunda, solução encontrada foi empoderar os tribunais para decidirem quais ferramentas seriam permitidas”, relatou.
Diálogo Brasil-Alemanha
O 11º Diálogo Brasil-Alemanha foi uma realização do Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH) São Paulo e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Reunindo especialistas de Brasil e Alemanha, da academia e da indústria, o Diálogo teve como tema em 2025 “Artificial Intelligence: Promises, Expectations, and Limitations in Science and Society”.
Quatro tópicos nortearam o evento: a IA na medicina e na saúde, inteligência artificial em ciência e engenharia, regulação de impactos e seu uso nas ciências humanas. A ideia era elucidar, de maneira interdisciplinar, as implicações da tecnologia e os caminhos que precisam ser seguidos para que sejam mitigados os efeitos negativos de sua utilização.
Texto: Rafael Targino